Quando nos identificamos com nosso ego, ficamos permanentemente nos agarrando a alguma coisa que nos mantenha ocupados. Pode ser um estímulo externo que capte nossa atenção. Ou pode ser um pensamento, uma fantasia. Mas o resultado é o mesmo: ação condicionada.
A meditação é um modo de intervir em nossos padrões condicionados. Direcionamos nossa atenção a uma palavra ou frase (mantra) repetida silenciosamente, ou a um estímulo externo, como a chama de uma vela.
E por que a meditação (que é um procedimento tão simples) funciona?
O princípio da incerteza se aplica aos pensamentos (quando há complementos no contexto ou teor). Na meditação ficamos atentos ao teor, perdendo, assim, o controle sobre a direção dos pensamentos. Quando estamos inteiramente concentrados no teor, e conseguimos perder por completo a direção, nos concentramos no presente. Esse centramento no presente nos impede de seguir nossas tendências condicionadas vindas do exterior, orientadas para o futuro ou para o passado.
É importante reconhecer que, embora esse tipo de meditação nos ajude a chegar à revelação, ela sozinha, não basta. O sábio budista Hui Neng viu um monge meditando. Imediatamente apanhou duas pedras e começou a friccioná-las com força. De início, o monge tentou ignorar o som. Mas, depois de algum tempo, desistiu, abriu o olhos e perguntou: "Por que você está fazendo esse barulho?" Hui Neng respondeu: "Estou fazendo um espelho polido." O monge retrucou incrédulo: "Você nunca vai fazer um espelho com pedras!" Hui Neng disse gravemente: "Você nunca vai atingir a iluminação meditando."
Hui Neng tinha razão. A forma de meditação que o monge estava praticando, chamada meditação por concentração, é uma luta. É um trabalho. Para completar o processo criativo, precisamos suplementá-la com relaxamento.
A meditação por percepção, tomamos consciência de nossos pensamentos, sem nos prender a nenhum deles isoladamente. Perceba a natureza complementar da meditação por percepção e da meditação por concentração, mais uma vez nos termos do princípio da incerteza.
Na meditação por percepção, atentamos para a direção do pensamento específico. Permitindo que os pensamentos desfilem em nosso campo mental, nós simplesmente testemunhamos sua passagem, sem "pular para dentro do trem" e sem nos ocupar de seu significado. Quando nos tornamos testemunhas perfeitas, o conteúdo se torna completamente incerto, e o apego ao pensamento cai por terra.
A luta pelo insight criativo é auxiliada pelo centramento no presente que a meditação por concentração vai construindo aos poucos, mesmo quando não estamos meditando corretamente. E a meditação por percepção nos ajuda com o ser, ou com o não-fazer. A prática do não-fazer nos mostra que ainda existe ação condicionada, mesmo quando não fazemos coisa alguma. Quando nos centramos plenamente no não-fazer, subtraindo-nos, assim, ao condicionamento, nos tornamos livres para agir criativamente.
Trabalhar regularmente com ambas meditações (percepção e concentração), nos abre para a experiência do fluxo. Nos tornamos capazes de fixar nossa atenção durante períodos prolongados. Os pensamentos aparecem, mas circulam inofensivamente em torno do centro de nossa atenção, e a paz e a calma vêm permear nosso estado de espírito.
Dos estudos com Dr. Amit Goswami

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